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Filosofia em Watchmen: A ética de Rorschach

Rorschach : o kantiano

Diário de Rorschach. 13 de Outubro de 1985. Porque existe o bem e existe o mal. O mal deve ser punido. Mesmo no dia do juízo final, isso não irá mudar. Mas tem muitos merecendo pagar… e tão pouco tempo[5].

Rorschach carrega um grande fardo em suas costas. Ele viu a verdadeira face da cidade, viu este mundo cheio de vermes, pelo que ele é: uma vala dos desgraçados, cada um escalando sobre as costas dos outros, por nada mais que um prazer insignificante, para simplesmente continuar essa vida patética por um segundo, um minuto, um dia a mais[6].

Diário de Rorschach. 12 de Outubro de 1985. esta manhã, no beco, havia um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado. A cidade tem medo de mim. Eu vi o rosto dela. As ruas são sarjetas dilatadas e essa sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar. A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e rameiras olharão para cima, gritando “salve-nos”… e, do alto, eu vou sussurrar: “não”.

E continua:

Eles tiveram escolha. Todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens honrados, como meu pai (…). homens decentes, que acreditavam no suor do trabalho honesto. Em vez disso, seguiram os excrementos de devassos e sem perceber, até ser tarde demais, que a trilha levava a um precipício. Não me digam que eles não tiveram opção. Agora o mundo todo está na beira do abismo, contemplando os liberais, intelectuais e sedutores de fala macia, que ardem no inferno… e, de repente, ninguém mais sabe o que dizer[7].

Verdadeiramente a mente deste herói é sombria, mas mesmo assim é regida por um principio simples, de longa e venerável tradição: o mal deve ser punido[8]. Desta forma, Rorschach exemplifica a teoria retributiva da punição; ele sustenta que os malfeitores devem ser punidos, por terem feitos maldades, pois estes merecem a tal punição. Todos nós desejamos punição. Todos se sentimos um pouco do personagem, queremos corrigir erros e os malfeitores sofrendo pelo crime cometido. Rorschach, como apropriado ao seu nome, nos deixa ver a nós mesmos[9].

Mas, em nossa missão para distribuir a justiça merecida, corremos o risco de nos tornarmos os monstros que combatemos. Na HQ de Watchmen, no final do capitulo VI, há uma citação do filosofo alemão Nietzsche (1844-1900): “Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”[10]. Assim já podemos imaginar como o herói Rorschach e transformaria.

Os motivos deste herói são puros: é a busca da justiça, da ordem moral, daquilo que é certo. Ele busca uma justiça retributiva ou retificadora, a ideia de procurar compensar uma injustiça mediante a retificação da situação, ou pela recuperação da igualdade a que a injustiça pusera fim. É o principio ‘olho por olho, dente por dente’. O conceito de retificação sugere retirar do criminoso e que se dê à vítima deste. Contempla a ideia do castigo, e que a ordem moral está desequilibrada enquanto essa é claramente difícil de reconciliar com as morais consequencialistas e antecipativas, uma vez que não faz referencias às vantagens adquiridas com a retribuição, vendo-a apenas como um fim em si[11]. Para Rorschach, os culpados devem ser punidos, pois são culpados, e a punição deles deveria ser proporcional aos seus crimes. A punição deve se adequar à gravidade dos crimes do malfeitor. Tornando o herói assim em um herói retributivista.

Para o também filósofo alemão Kant (1724-1804), “a[punição] deve ser sempre infligida sobre [o criminoso] apenas porque ele cometeu um crime[12]”, para ele a punição não deveria ser dado para o bem do criminoso, como por exemplo, para a reforma ou reabilitação, pois assim, seria trata-lo como um animal, um cão que é domesticado. O malfeitor não deve ser tratado como um mero fim, não devemos usar este( uma pessoa) para os fins da sociedade, “pois um ser humano não pode nunca ser tratado com um meio para os propósito de outro[13]”, com isso o filosofo queria nos dizer que, deveríamos tratar as pessoas com respeito. E o por que criminosos mereciam ser punidos, pois sua punição deve respeita-los como agentes morais, e não animais a serem domesticados, como malfeitores a ser responsabilizados por suas ações[14].

Então, age de forma a usar humanidade, seja na sua própria pessoa ou na pessoa de qualquer outro, sempre, ao mesmo tempo, como fim, nunca meramente como meio[15].

Se falharmos em punir os criminosos e malfeitores, estaríamos não tratando–os como membros plenos da sociedade moral. Na visão de mundo do herói Rorschach, ele é ordenado por valores comuns, e os desviantes ameaçam sua coeção. Pois para ele, nossa dignidade está se agirmos como se o mundo fosse justo, mesmo quando ele claramente não é[16]. Para o filosofo Hegel (1770-1831) “a punição é o cancelamento do crime(…) e a restauração do que é certo[17]”. Para este, só por meio da punição podemos reafirmar os valores que foram transgredidos e fazer o criminoso sentir o erro que cometeu. E Rorschach adora fazer o malfeitor sentir isso. A punição serve para proteger e reproduzir uma ordem moral ideal.

Cada um deve respeito o próximo e trata-los como fins em si mesmos, pessoas que merecem respeito pelo que são, agentes livre e racionais. A punição é, como descrê Irwin, meramente um instrumento para implementar essa ordem moral. E Rorschach expressa isso, quando fala com o psiquiatra no presídio:

Este mundo sem leme não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é deus que mata as crianças. Não é a sina que as esquarteja ou o destino que as dá de comer aos cães. Somos nós. Apenas nós[18].

O valor da vida está em como ela é vivida. É somente com justiça e ética, que vem o valor e respeito. Assim como Kant descreve, “pois, se a justiça se vai, não há mais qualquer valor nos seres humanos vivendo na Terra[19]”. Rorschach busca esta justiça, uma centelha da moral, para uma luz no fim do túnel.

Em um último dialogo, com seus companheiros, Veidt, o homem mais inteligente do mundo, vendo que seu plano deu certo comenta:

Duas super potencias desistindo da guerra (EUA e URSS). Eu salvei a terra do inferno. Nós salvamos (…). Agora podemos voltar a cumprir nosso dever[20].

Na qual Rorschach responde: “O nosso dever é fazer justiça. Todo mundo vai saber o que você fez![21]”, seguindo o dialogo:

  • Veidt – Será mesmo Rorschach, se me denunciar irá sacrificar a paz pela qual milhões morreram hoje.
  • Coruja II – Paz baseada em uma mentira.
  • Veidt – Mas é paz, apesar de tudo.
  • Dr. Manhattan – Ele está certo.
  • Espectral – Não, não podemos fazer isso!
  • Dr. Manhattan – Você me ensinou o valor da vida humana, se quisermos preserva-la aqui, temos que ficarmos em silêncio.
  • Rorschach – Fiquem vocês com suas mentiras! Não faço acordos, nem mesmo diante do Armagedom.
  • Fora do palácio de Veidt, Rorschach encontra Dr. Manhattan. E continua dialogo:
  • Dr. Manhattan – Rorschach, você sabe que não posso permitir isso!
  • Rorscharch – Se tivesse se importado desde o começo(com a humanidade) nada disso aconteceria.
  • Dr. Manhattan – Posso mudar quase tudo Rorschach, mas não posso mudar a natureza humana.
  • Rorschach – Claro, deve proteger a utopia de Veidt. Um cadáver a mais não faz diferença. Muito bem, o que está esperando, vai me mate, me mate…[22].

Rorschach, no final da trama de Watchmen, mesmo sabendo que esta seria sua última atitude antes da morte, ele comenta: “o mal deve ser punido. Pessoas alertadas[23]”. Rorschach sabe que se deixar o plano de Veidt escapar ileso, a justiça foi comprada, mas não realizada. Para Kant, sem justiça, não há valor na vida humana, como vimos acima. O herói se recusa a fazer concessões, vender a justiça, mesmo que isso signifique desfazer a ilusão de Veidt e, portanto, garantir que os milhões que morreram o tenham feito em vão. Enquanto lágrimas escorrem, sabendo do seu destino, ele berra, “vai me mate”, e Dr. Manhattan o evapora[24]. Rorschach não quis a morte. Ele entendeu o que os outros companheiros de luta contra o crime não conseguiam entender:

É melhor sacrificar a vida do que negligenciar a moralidade. Não é necessário viver, mas é preciso que, enquanto vivemos, o façamos com honra[25].

[1]WATCHMEN.Edição Definitiva.DC Comics.Editora Panini, 2005. p. 30.
[2] Histórias em Quadrinhos.
[3] IRWIN,William. Wachtmen e a filosofia.São Paulo: Ed. Madras, 2009. p. 44.
[4] Watchmen:O filme.Direção:Zack snyder.Warner Bros Pictures, 2009.1 DVD(162 mim),color.
[5] WATCHMEN.Edição Definitiva.DC Comics.Editora Panini, 2005. p. 30.
[6] IRWIN. Op. Cit. P. 29.
[7] WATCHMEN. Op. Cit. p.7.
[8] Op. Cit.
[9] IRWIN. Op. Cit. P. 30.
[10] NIETZSCHE aput WACHTMEN. Op. Cit. p.204.
[11] BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia.Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1997.
[12] KANT. The metaphysiscs of morals.Cambridge, UK:Cambridge University Press, 1996. p.331.
[13] KANT. Op. Cit.
[14] IRWIN. Op. Cit. P.33.
[15] KANT. Fundamentação da metafísica dos costumes.São Paulo: Martin Claret, 2003.
[16] IRWIN. Op. Cit. P.35.
[17] HEGEL aput IRWIN. Op. Cit. p. 35.
[18] WATCHMAN.op. cit. P.202.
[19] Kant. 2003. op. Cit.
[20] Watchmen: o filme. Op. cit.
[21] Op. cit.
[22] Dialogo retirado do filme Watchmen : o filme.
[23] WATCHMEN. Op. Cit. P.403.
[24] IRWIN. Op. cit. p.37.
[25] KANT aput IRWIN. Op. cit. p. 38.
Por Gelson

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