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O segredo do Homem Aranha

Para falarmos sobre o que levou o Homem Aranha ser um personagem que ficou mundialmente famoso, e é um dos ícones não só dos quadrinhos como da cultura pop como um todo, vamos começar falando sobre… Segmentação do mercado.

Isso mesmo, dentro do marketing, a segmentação de mercado consiste em identificar num mercado heterogêneo um determinado grupo de indivíduos, com respostas e preferências semelhantes de produtos. Isto deve ser observado como um poderoso instrumento que auxiliará departamentos de marketing e de design, no intuito de apresentar propostas que atendam aos desejos deste público-alvo. Esta deve ser a base que suporta toda a estratégia de marketing de um produto.

Isso nada mais é que direcionar seus esforços para um público específico. Afinal, não se pode agradar a todos. Algo que toda empresa precisa, e o Homem Aranha nada mais é que um produto de uma empresa, a Marvel comics no caso.

No marketing, é essencial a aproximação de da empresa com seu público. Temos diversos exemplos, como os anúncios da casa Bahia, onde através da gesticulação, se cria uma comunicação com o público, o ator age de forma a parecer sincero e ao levar a mão no rosto como se tivesse contando um segredo, criando cumplicidade e assim gerando confiança. Temos isso no campo político, Dória ou Alckmin comendo pastel em feiras, o ex presidente Jânio Quadros, que jogava talco no paletó para parecer que era caspa e fazer se passar por homem do povo. Outro exemplo comum, o atual presidente Bolsonaro que vira e mexe lança foto dele comendo pão com manteiga, lavando roupa tudo para parecer que é humilde.

Algo importante ao se desenvolver uma história, é fazer o leitor (ou telespectador) entrar na história ao ponto de esquecer que é ficção. O que chamamos de suspensão da descrença. Para isso, temos que fazer o público ter empatia pelos personagens, e isso se faz trabalhando sua personalidade, suas relações e o colocando em situações, muitas vezes problemas, próximos de seu público.

Nisso vamos voltar um pouco antes, a época de ouro das HQs. Era uma época onde os seus personagens, tinham o arquétipo de deuses, então temos o Batman, Superman, Mulher Maravilha com base nos deuses gregos, o estereótipo de perfeitos. Mas isso vem devido a época de seus surgimentos, final da década de 30 e início da década de 40, o mundo havia acabado de passar pela até então maior crise econômica do mundo, o Crash de 29, depois entrou em uma Guerra Mundial na luta contra o fascismo, o público não queria algo que o lembrasse que estavam ferrados, queriam histórias que os tirassem daquela realidade. E durante a guerra, personagens como Superman vieram para lembrar que eles eram fortes, eles eram a América, eram super homens e por isso, podiam derrotar os nazistas.

Década de 60, Guerra fria, outra realidade, Quadrinhos em baixa com histórias idiotas graças ao Código de conduta dos quadrinhos que explicamos em (origem do preconceito com quadrinhos). Então veio Stan Lee e Jack Kirby com uma nova proposta, o de humanizar os super heróis, faze-los lidar com problemas reais, drogas, sexualidade, problemas urbanos. Bruce Wayne é rico, Tony Stark também, Clark Kent é um repórter mas nunca teve problemas financeiros. Então ai veio o Homem Aranha.

Novamente em como aproximar os personagens com seu público, temos dois pontos, mostrar o que o seu público quer ser mas não é (super heróis musculosos e bombados, protagonistas de novelas sempre de classe média alta e que sempre andam maquiadas e belas), ou, mostrar os personagens superando problemas parecidos com os de seu público. É comum por exemplo, nas obras da Shonnen Jump, os protagonistas terem a idade de seu público alvo, os cavaleiros dos zodíaco tem entre 13 e 15 anos, Goku em Dragon Ball começou com 12 ou 14 e terminou com 17, mas ai veio DBZ que é outra história. Naruto começou com 12, no Shippunden tinha 16, Ichigo de Bleach tinha 16, Yusuke tinha 14 e por ai vai. E Peter Parker, tinha cerca de 15 anos aproximadamente. Muitos até hoje gostam mais do momento que ele estava no colégio. Era um jovem franzino, fraco, nerd, não por menos foi apelidado de herói dos nerds. Vale lembrar, que até anos 90, nerd era um termo pejorativo, como se fosse sinônimo de perdedor (ainda que muitos fossem os primeiros da turma, mas nem sempre eram os “Cabeça De Ferro”), os que sentavam no fim da sala, a galera do fundão, que não tinham muitos amigos e dificuldade de falar com mulheres. Eram bem estereotipados, e costumavam a ser os que gostavam de ficção, HQs, desenhos, o que hoje chamamos de cultura Nerd ou Geek. Como eu disse, os nerds eram os principais públicos das HQs e o Homem Aranha sendo um nerd declarado, fica fácil de perceber a aproximação com seu público. Peter tinha dificuldade de se relacionar com garotas, seja por timidez ou quando superou a timidez, por dificuldade de conciliar as duas vidas. O que já não era comum de ser mostrado. Tinha que se preocupar com provas (nem tanto convenhamos, ele era um gênio), ao ir crescendo, dificuldade de arrumar emprego, pagar contas, ganhava mal com as fotos e ainda tinha que ver seu chefe esculachando seu alter ego com as fotos que ele mesmo tirava.

Como eu disse no texto, muitos personagens não precisavam se preocupar com isso, alguns eram ricos, e mesmo os que não eram, é como se nunca tivessem passado por problemas como pagar conta, caçar emprego, sempre foram bem consolidados.

Tem ainda a característica sarcástica e debochada do Spiderman, o bullyng dos vilões, mas possivelmente, o ponto forte foi realmente o fato do Peter lidar com problemas comuns como a gente. E depois acompanharmos o seu crescimento, estabelecimento na vida profissional e pessoal, semelhante com o que acontece com Goku, onde o acompanhamos desde garoto, virando adulto, virando pai e depois avô. Mas no caso de Goku, o vimos crescer mas sua vida pessoal não é relevante, demorou muito para mostrar como Chichi pagava suas contas, porque em DBZ isso não importa, mas com Homem Aranha, importa tanto quanto para gente. Esse foi o problema do arco “Um dia a mais” que tinha uma premissa interessante, mas destruía tudo aquilo que ficamos anos acompanhando.

Mas vale ressaltar, que o Spiderman foi um dos pioneiros, não é algo exclusivo nem do Homem Aranha e nem da Marvel. A DC correu atrás (sempre que uma sai na frente a outra corre atrás do prejuízo e vice versa), tratou de humanizar seus heróis, uns mais, outros menos. Arqueiro Verde passou a tratar de temas como drogas e HIV, Lanterna Verde acompanhou em algumas hqs, temos um lanterna que tinha problemas financeiros também, Batman explora máfia e corrupção, além de aprofundar na psique humana, enquanto na Marvel se cria os heróis urbanos, que tratam de racismo, homofobia, mas feminismo, já tínhamos a mulher Maravilha. Mas ambos os temas são tratados em ambas as editoras.

E assim, vemos o porque o Homem Aranha ficou grande, mas também serve para nós, quadrinistas independentes, termos uma luz de como estabelecer nossos personagens.

 

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