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Análise de composição de páginas – Watchmen

       Quadrinhos pode ser definido como uma série de quadros sequenciais, que casam texto com imagem para desenvolver uma narrativa. Um perfeito exemplo deste casamento de texto e imagem, é a primeira página de Watchmen. Logo na abertura do quadrinho temos a cena de um smiley caído no chão com sangue em cima, e ele acaba sendo um símbolo forte em toda a série diretamente relacionada ao Comediante. É como se logo de cara, avisasse que a piada acabou, um choque de realidade. Nas palavras de Dave Gibbons, desenhista dos quadrinhos:

“Nós percebemos que aquele bottom sorridente era o desenho animado supremo. O desenho mais simples. Um rosto sorridente preto e amarelo, com um espetáculo de sangue realista em cima dele. Era como o mundo real impondo-se a um desenho animado, que é o que estávamos tentando fazer, trazer personagens dos quadrinhos como se estivesse vivendo no mundo real.”

        Um assassinato ocorreu. Os quadros seguintes, é como se uma câmera fosse diminuindo o zoom da cena, quadro a quadro, mostrando de onde houve a queda, a origem do sangue escorrido. E o importante a se ressaltar, a cena toda se passa em sete quadros. Em muitos quadrinhos atuais, tem se focado uma composição mais dinâmica, de modo a intercalar os quadros ou ao menos os componentes dos quadros, usando de perspectivas, por exemplo. Aqui foi feita uma escolha mais básica, é como se realmente tivesse uma câmera se afastando em zoom out para mostrar o quadro completo da cena. Dando assim, uma maior dimensão do ocorrido.
Mas não para por aí. Porque os quadros são acompanhados por uma série de comentários de um personagem, no qual descobrimos mais a frente ser o Rorscharch. Diálogo esse que possui uma série de alegorias, fazendo uma alusão à queda e que nos apresenta várias características do personagem. Logo de cara, ele escancara um caos de imoralidade generalizado, e ironicamente, introduz sexo no meio das imoralidades (algo que tem bastante peso, como a HQ demostra mais a frente). Rorschach tem um posicionamento mais conservador e de direita, colocando comunistas no meio de imorais e, igualando liberais e intelectuais do lado bom que foi ignorado. Aqui, já se tem uma demonstração da moralidade preta e branca, que inclui “bandido bom é bandido morto” do personagem.
Um grande foco na fala de Rorscharch, é que o mundo está um caos, a beira de um abismo. A HQ é de 1986, escrita ainda no final da Guerra Fria. Nela, a situação do mundo está como uma bomba relógio prestes a explodir. É feita uma alusão do abismo com a perspectiva de quem está olhando do alto do prédio, do andar de onde houve a queda. A situação do quadrinho, não foge muito da realidade.
A Guerra Fria foi basicamente uma guerra de viés puramente ideológico, baseado em fatores econômicos e de influência das duas potências da época. Onde um conflito armado, era visto como o risco do fim do mundo, visto que as duas potências tem armas atômicas o suficiente para destruir o mundo. Em 1964, houve a crise dos misseis em Cuba, onde basicamente o país vira se torna socialista indo pro lado da URSS, que implanta mísseis direcionados a Washington. Tal medida fora uma resposta ao EUA, que já tinha uma base com mísseis apontados para Lisboa. Neste dia, o mundo poderia ter acabado. A HQ se baseia em uma situação semelhante, já que, em uma inevitável guerra, ninguém sobreviveria. Não obstante, a última fala da página, é um personagem olhando pra baixo (o abismo) falando que “é uma queda e tanto”.

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